domingo, 27 de fevereiro de 2011

Espero que a gravidade não quebre minhas pernas enquanto eu caminho na lua que orbita meu peito; Me puxando de volta para a terra, com força; Espero que os sonhos, com véus de seda, não enforquem meu pescoço; Eu não espero muito, apenas viver do que eu sou; Minha única ambição é me tornar o que eu sou. *** Gostaria que você tivesse me conhecido melhor para entender o que eu estou dizendo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Inacabado

“Costumo dizer que pessoas estranhas atraem, da mesma maneira como se é, situações ou outras pessoas estranhas. Nem sempre é fácil ser assim e aquela história de que ninguém é normal é uma verdadeira balela. Você percebe isso quando as outras pessoas te olham de rabo de olho ou quando as velhinhas atravessam a rua quando te veem. No entanto, às vezes o trágico é cômico e como a irreverência é uma das parentas mais distantes do tedioso marasmo pode-se tirar alguns bons momentos dessa condição. Eu sou uma daquelas pessoas assumidamente misantropas. Não! Eu não gosto de sair. Não! Eu não gosto de viajar. Não! Tão pouco gosto de praia, sol e loucuras de verão. Tenho um aparato de coisas em casa que substituem o mundo lá fora, inclusive, meus diversos alter-egos transformam-se facilmente em amigos imaginários. Para ser um velho ranzinza só me falta um pouco mais de idade.
Podem acontecer, e de fato acontecem, pequenos lapsos. Rompimentos na integridade basilar da misantropia. Não poderia ser diferente, qualquer forma de perfeição resume-se a mera utopia. E foi nessa ruptura, quando estava deitado no afago de uma melancólica companhia, que vi um homem de aspecto pouco amigável no centro do cômodo que irritado me expulsou da alcova. Tédio é um sujeito mal-humorado, seu jeito intragável deixa-me com os nervos a flor da pele mesmo em suas visitas esporádicas. Não pude acreditar ao vê-lo, quis distância dele, de sua conversa mole, sua preguiça, sua falta de gosto... Ah! Levantei-me bravejando e pus-me para fora de casa. Caminhei em direção a um desses lugares noturnos de praxe: escuro, lotado e com uma música ruim gritante. Mal depositava o peso do meu corpo sob o chão daquele local e uma onda de calafrios e desconforto invadiu minh ‘alma. Olhei para trás pensando em voltar, mas Tédio me esperava na porta. Eu o encarei, franzi a testa e, continuei a penetrar ainda mais naquele universo. Perto do bar, avistei do outro lado de balcão uma mulher de cabelos negros e esguia; do rosto pálido destacava-se um batom tão forte quanto o sangue. Perguntei seu nome – Desespero – ela respondeu enquanto servia o rapaz ao lado. O rapaz tinha os poros de seu rosto banhado em suor, olhos vagos e carregava no rosto um sorriso de incoerência.
Sente-se – disse Desespero voltando-se para o bar – eu vou te dar uma dose de insanidade. Minha cabeça já girava, as luzes piscavam rápido demais; contestei a necessidade de beber algo, mas a voz de Desespero sobressaia a minha. O que vou beber? – perguntei – ela deu de ombros e continuou a mexer em suas grandes garradas vermelhas sem responder. Não demorou muito para estender fronte a mim um drink escarlate dizendo – uma dose do inferno. Segurei a mistura sem muita firmeza e, encarando Desespero, tomei de seu copo como se a desafiasse. Mal acabara de beber quando meu corpo estremecendo caiu para o lado, levantei-me; mal conseguia andar, mas precisava achar a saída. Foi então que avistei Tristeza, uma dama sem expressão e de olhos fundos, parecendo uma noiva abandonada debruçada sobre meu corpo titubeante. Perguntava-me porque havia abandonado seus afagos e trazia consigo uma injeção; um remédio ela dizia, para curar-me do Desespero. E eu sentia as agulhadas pontiagudas de Tristeza. O efeito parecia ser oposto do planejado, de maneira que, em um impulso de sobrevivência, a empurrei junto com seu remédio. Levantei-me, tomei distância e andei como pude para uma área aberta à procura de ar. Mais calmo, observei as pessoas e pude até rir de sua felicidade, sua alteração e embriaguez. Minha pele ainda soava quando aproximou-se de mim um sujeito de preto. Começamos a conversar e, enquanto conversávamos, escutava outras vozes me chamando, mas Tristeza, Tédio, Desespero, foram expurgadas pelo cansaço da espera.
Quando estava calmo o suficiente notei a roupa preta daquele rapaz. Uma batina? Aquilo não poderia ser a única coisa real naquela noite. “

sábado, 25 de dezembro de 2010

ESCORPIÃO

Sempre fui uma mentirosa ao dizer que nunca sofri. Na verdade, eu sofro demais, da mesma maneira como me regozijo. Eles apenas nunca deixaram as coisas serem reais para que eu considerasse a dor verdadeira e a admitisse. Acabamos fazendo, os outros e eu, disso um jogo. Arranhamos os corações um dos outros, sangramos e depois de uma dose e de um comprimido já estamos bem. Acordamos novamente para a mesma rotina de jogatinas de amor esperando alguma espécie de resgate.
Às vezes a covardia inibe as coisas: Onde está aquele beijo que você me negou?
Isso deixa as coisas mais intensas, deixa meu ódio mais vivo e minha vontade mais quente. Faz com que eu pinte retratos lascivos de nós dois na minha cabeça.
Eu sonhei... Eu quis sincronizar nossa respiração e disparar as batidas do seu coração para depois paralisar tudo por um momento. Ataque cardíaco! Eu quis nossos quadris em sincronia, minha mão na sua nuca; meus dedos se enroscando no seu cabelo. Puxe!
Eu quis seus defeitos e sua feiura, afinal é isso que o amor é: cruel. Você quis minha doença e, afinal é isso que o amor é: loucura. A loucura quis o amor, afinal é isso que loucura é: realidade. Beleza, felicidade, calmaria, segurança, aparências, tudo isso é o que o nosso amor não é. Mais ainda podemos ter um pouco de diversão, eu só preciso de uma chance.
Uma chance, não é muito para negar.

AMOR

Meu amor, sereno e eterno.








Malu

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Que moço é esse?

Por Danielle Corrêa

Que moço é esse que desatina os meus sonhos;

Que resplandece o prazer dos risos mais risonhos?

Que moço é esse que vem e vai?

Exalando a beleza que não passa, não sai.



Entre o aljôfar do semblante

Exprime o brilho do mármore penetrante.

E sem ao menos notar,

Seus olhos brilham ao falar



Que moço é esse de voz doce e suave?

-Que domina os meus olhos e não sabe.



E nem eu mesma sabia

Que de homem e menino exibia.

Que moço é esse que vaga

Nos raios fúnebres que nunca o apaga?



Que moço é esse que diz e não diz?

Que não quer o que quis?

Que moço é esse que some e aparece?

Que se faz feliz e se envaidece?



Que moço é esse que eu não sei?

Que moço é esse que tanto busquei?



Que moço é esse que é perigo?

-Que desperta desejo, ainda que, amigo.

E de repente, do nada

Diz tudo com a boca calada...

domingo, 31 de outubro de 2010

EM BREVE






NOSSO PROJETO DE HQ.








Prólogo a Shakespeare

Tomei a liberdade de fazer alguns gracejos na minha monografia, dentre eles, fiz um prólogo a Shakespeare, texto que estou colocando aqui. Cito o conto Píramo e Tisbe, parte da mitologia romana que ficou conhecido através de Ovídio em seu livro Metamorfoses. Para ilustrar melhor, coloco também um trecho que explica o conto.

PRÓLOGO A SHAKESPEARE

Estou para Shakespeare como Tisbe está para Píramo, Shakespeare está para mim como Píramo está à Tisbe. Uma fenda na parede do tempo permite que poesia e admiração se comuniquem através de olhares, assim como permitiu o florescimento da paixão entre os amantes. A ruptura com o meu tempo permite que eu me aproxime do seu; a visão é pequena, desfocada e confusa. Ora, é a apenas a visão que a fenda me permite. O lapso da integridade dessa parede, dentro do que posso enxergar, me faz ter a ideia do que é você. Talvez seja uma visão idealizada dentro do que possa ser mostrado nesses centímetros de abertura, mas tudo é sempre muito bem observado.
Vi um homem que pode ser muitos, que pode ser todos. Às vezes, talvez pelo tamanho do buraco, talvez por sua diversidade, sua sombra me confundia com a de outros. Suas falas tinham a mesma força que o satélite lunar, capaz de mudar o percurso das marés. O brilho da sua estrela havia se convertido não só em um ponto na imensidão, mas em um céu inteiro, capaz de iluminar-nos através dos séculos, até os dias atuais. Apesar disso, este homem era homem, e não deus; padecia das mesmas dores, e sangrava como os homens de seu tempo. Tornava-se taciturno com as incertezas de uma época tão inconstante e gozava da mesma euforia que reveste o espírito do novo e da liberdade. Tornou-se fatalmente sombrio em algumas passagens, eram momentos em que sua própria nação encontrava-se em reviravoltas, mas não demorou a reconciliar-se com a literatura, usando novamente o espetáculo de grandes mitos para entreter seu público e adornar suas peças.


PÍRAMO E TISBE

"O conto de Píramo e Tisbe trata-se da história de dois jovens apaixonados que moravam em casas vizinhas. Píramo era o mais belo jovem e Tisbe a mais formosa donzela. Moravam em casas contíguas, da vizinhança tornaram-se cientes de si e deste conhecimento foi gerado o amor entre os jovens. O amor seria virtuoso se seus pais não proibissem seu casamento. Mesmo com esta oposição, o amor dos jovens foi florescendo, conversavam através de sinais e de olhares que tornava o sentimento mais intenso. Na parede que separava as casas havia uma fenda provocada por um defeito de construção. A fenda jamais havia sido notada pelos moradores das casas, mas não poderia ter passado em vão pelos olhos dos amantes que viram na rachadura a oportunidade para se comunicarem. Os jovens se comunicavam todos os dias através desta fenda e concluíram que a única opção que tinham era fugirem de suas casas. Píramo e Tisbe combinaram de se encontrar fora dos limites da cidade, ao pé de uma amoreira branca que encontrava-se próxima a uma fonte. Tisbe chegou primeiro ao local, e, enquanto aguardava Píramo, avistou uma leoa com a boca ensanguentada querendo saciar-se da fonte de água que encontrava-se aos pés da amoreira. Assustada, Tisbe correu para uma caverna em busca de abrigo, deixando seu véu cair sobre a terra. Quando Píramo chegou ao local, não avistou Tisbe, apenas seu véu ensanguentado e as marcas das patas da leoa. Píramo calculou que Tisbe havia sido vítima da leoa e resolveu tirar sua própria vida, a fim de unir-se a sua amada. Quando Tisbe voltou ao local, encontrou Píramo morto por sua própria espada, entendendo a situação e sentindo-se culpada por sua morte, Tisbe tirou também sua vida, de maneira que ao menos na morte o casal pudesse se unir. Segundo a mitologia, o sangue dos apaixonados teria sido derramado ao pé da amoreira as tingindo de vermelho e tornando-as símbolo do amor.
O drama de Píramo e Tisbe é considerado como a grande influência que levou Shakespeare a escrever um de seus mais famosos romances: Romeu e Julieta."

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Skhízo ganhará forma

Em breve, nosso amigo Skhízo ganhará forma em desenho, e também, ganhará uma melodia de Daniel Santiago, vocalista da banda Sambô. Aliás, ele e sua banda têm uma proposta musical muito legal. Eles são, na minha opinião, inovadores e irreverentes. Vou deixar o link do Clipe “Maria lava” do San, vejam como é legal. Os shows do San costumam ser tão visuais quanto musicais, extremamente ricos, com direito a apresentação circense e tudo mais. Seu CD todo “o traço” tem letras feitas com base em contos que encontram-se em seu encarte. Quanto ao desenho do Skhízo e novas estórias, estórias mais descontraídas, vou me reunir amanhã com o desenhista, quem sabe até o final do feriado não temos um esboço dele, e é claro um link com mais trabalhos de seus desenhos, afinal, é sempre muito bom conhecer novos e independentes artistas.
Ai vai, o San:

Antologia Delicatta

Muitos escritores e poetas, artistas em geral, procuram meios legítimos e sérios de divulgar o seu trabalho. No meu caso, com a literatura, uma das formas de expressão que gosto de utilizar, tive a oportunidade de participar de alguns projetos e algumas antologias. Me lembro da primeira antologia que participei, nunca havia feito algo parecido, e; de certa forma, para mim, foi um tiro no escuro. Logo de cara, encontrei o projeto Delicatta, que veio a ser meu modo predileto de participação cultural em literatura. Cheguei a participar de outros concursos, mas este foi o único que me cativou para participar três anos consecutivos, ou seja, desde que o conheci.
A dedicação de sua idealizadora, Luiza Moreira, seja na seleção, edição ou confraternização da antologia, dá um toque especial, que incentiva cada vez mais os autores, que por sua vez, também são extremamente talentosos e solícitos uns aos outros.
No último pré-lançamento do livro, a Antologia contou com diversos elementos culturais como fado, declamação, interpretação e levou seus autores em lançamento na bienal. Por isso, a quem interessar, deixo o link do site: http://www.antologia-delicatta.com/

Espero que gostem!

domingo, 22 de agosto de 2010

SKHÍZO E SEU HABITAT




A CRÔNICA DA MODERNIDADE

Meio ambiente define-se por todo um conjunto de leis naturais, químicas e sociais que abrigam um ser vivo. Em nosso caso, caros amigos, não adianta vir com a falácia poética sobre animais ou nossas matas verdejantes. Não que eu faça apostas em brigas de galo ou deseje ver belas mulheres em casacos de pele desfilando na gélida praia de Ipanema. É muito bonito falar sobre natureza e fazer discursos pró-planeta terra, mas o nosso meio ambiente, meus amigos, trata-se da famigerada “selva de pedras”. Não preciso explicar a escolha do termo “selva”, afinal, não sou redator de programa sensacionalista ou algo que o valha. Creio que aqui não se faça necessário entrar em detalhes, nosso bom senso dispensa explicações.
Minha percepção de horizonte não faz, na realidade, muito sentido. O leitor vai ter que me desculpar, é muito provável que minhas palavras acompanhem este olhar segmentado, de um mundo tão rico que perde sua origem.
Desde tempos antigos, o homem esforça-se para afastar-se da natureza, criando novas regras de civilidades nascidas apenas para separar classes distintas, ou melhor dizendo, separar o homem do homem, distinguindo-se da natureza e tratando a si como um universo paralelo, formando um habitat a par, onde eu, como homem atual, o identifico nas ruas pulsantes de congestionamento e grandes edifícios competindo em seus andares; meu horizonte, então, torna-se vertical.
No trânsito, eu sou o passageiro; fecho os olhos para me livrar do cansaço que carrego após mais um dia de sobrevivência na relva, percebo as luzes dos faróis atravessarem minhas pálpebras, como pancadas que me despertam, permaneço, porém, com os olhos fechados, diferencio suas cores, mas não suas formas. Nesta condição, encontro-me no final da pirâmide hierárquica da cadeia alimentar deste mundo que me devora. Faço parte daquela opulenta espécie de usuários-de-transporte-público. Ah! Espécie mal agraciada de pequenos indivíduos que se espremem e se sufocam dentro de vagões; ao lado de catracas, desviando de portas automáticas, lutando por espaço com uma habilidade quase que circense. Digo isso, pois, me sinto na categoria de palhaço quando gasto uma quantia considerável com a passagem para ser submetido a uma fábrica de sardinhas. As leis da física, nesses lugares, simplesmente não existem! É de impressionar qualquer David Copperfield.
Sardinhas, enlatados, industrialização, individualismo. Esse tipo de habitat desenvolve um comportamento comum, quase generalizado, conhecido como camuflagem. As pessoas fundem-se ao seu meio como camaleões, não deixando se mostrar verdadeiramente. Não sabemos, por exemplo, seus sentimentos mais profundos, idéias ou conceitos. Fica-se amostra aquilo que é consideravelmente comum, o que não se percebe é; todos possuindo suas anomalias patológicas ou sociais, não deixam de ser normais. O estágio mais avançado que padecem estes camaleões é a notável falta de tempo que tem um para com o outro, sempre correndo, sempre ausentes, combatendo o relógio, combatendo a companhia de outrem como uma alergia que coça e incomoda sua pele. Uma intragável característica que não me permite discorrer mais sobre o assunto sem que as linhas se tornem lamentavelmente obscuras e taciturnas, ou pior, que eu me ache culpado.
Dentro deste ambiente caótico o meio primordial, aquele que se ignorou, aquele que se advém, é usado como válvula de escape, um universo separado ao nosso, a ilha deserta para a qual fugimos. Por quê? Por que na natureza? Simplesmente, porque ela não é o nosso mundo, e mesmo assim, não deixamos de lado nosso aspecto urbano.
Veja só, outro dia estava a caminho do litoral, quando resolvi parar no meio da estrada para tirar fotos da usina de Cubatão. Estranho, mas fiquei maravilhado com aquela beleza artificial. É claro, confesso, meu traço de urbanismo e modernidade foi exacerbado, bastava citar a compulsão por celulares e secadores de cabelo. Em todo caso, de qual maneira poderia me portar dentro de uma realidade onde até as grandes empresas com tratados de carbono vendem cotas de bom ar ao país que polui mais? Protocolos internacionais como de Kyoto, redução na emissão de gases estufa, leis verdes, economia sustentável e coisas similares, só ilustram para mim, um cenário onde a natureza luta de forma quase épica para sobreviver ao tirânico homem, tendo ao seu lado, alguns traidores vegetarianos.

AUTORA: THALITA NOCE

MARA CONTI



O homem que lembrava demais

Trimmmmmmm, plact, aaaaaaaa; mais um despertar, de mais um dia cheio de detalhes, barulhos, acontecimentos e sensações. Desligou o despertador, levantou da cama e abriu a janela com a esperança de que, especialmente naquele dia, a sorte adentrasse e alguma coisa muito surpreendente acontecesse bem diante de seus olhos. Olhou profundamente cada canto do apartamento, contou os furinhos da parede, ajeitou dois quadros, ligou e desligou a TV três vezes e antes que qualquer novidade lhe atrapalhasse a rotina, saiu sorrateiro.
No elevador o cheiro era de uma segunda-feira ensolarada, a maresia conseguia penetrar os portões e chegar ao hall do prédio. Andou cinco quarteirões, duas travessas, 37 lojas e 13 casas, enfim chegou ao escritório. O tilintar das teclas sempre era o primeiro som que chegava até o ouvido, os rabiscos faziam um som agradável, principalmente as assinaturas que na maioria das vezes acabava com dois pingos.
Era tudo sempre igual, às vezes parecia repetição: despertador, cama, janela, elevador, rua trabalho, computador, assinaturas, canetas...Só que a cada dia Aurélio observava um detalhe novo, um som, um cheiro, um furo maior na parede. Muitas vezes as pessoas iam sumindo ao fundo, como nas pinceladas de Van Gogh. Um emaranhado de pessoas que se tornavam cenário para coisas tão pequenas, verdadeiros detalhes do dia a dia.
Aurélio já não conseguia se concentrar nas coisas que a sociedade, geralmente, trata com alguma importância. Fonseca o chamara em sua sala, ele levantou-se apático, e foi. Bom dia, sndnfghfugigurtr xxxxxxxxx lfuigjhohtihutr kxkxkx o relatório. Caramba, o que foi que ele disse, só entendi a última palavra, preciso me concentrar mais, e agora, volto lá? tento não olhar para os Monets falsificados, e para a poeira que formou uma espécie de espelho nos dois porta-retratos em que estavam em cima da mesa?...Ah, ele vai me chamar de novo, e dessa vez vou prestar atenção nas palavras e não nas quinquilharias.
Passaram-se duas horas e ele observou que a copeira preparava a sala de reuniões, foi quando se lembrou do pedido de Fonseca: o relatório contendo orçamentos para a reforma da nova sede do escritório. Tarde demais, a única alternativa que conseguiu pensar naquela situação fora a dor de barriga, que o atacara subitamente sem chance de reação.
Quando saiu do escritório, os sons estavam irritantemente altos, os carros buzinavam sem ninguém dentro e tudo o que enxergava eram borrões de cores, que julgava ser o colorido das roupas das pessoas. O caos que tanto o amedrontava ganhava traços das telas de pintura, as quais passava horas e horas observando, talvez seu único hobby que verdadeiramente fazia com prazer.
Começou a andar rápido, correr, fugir, sumir. Chegou em casa e o barulho havia penetrado pelas paredes, estava em tudo. Os armários rangiam, a pintura ganhara novos furos em apenas algumas horas. As torneiras dos vizinhos pingavam, a descarga, o chuveiro, quantos passos, tem 3 cães nesse andar, dois bebês, lá embaixo tem um porteiro, zelador. Tem alguém gritando: Pega o balde! O Jerson está? Já avisei que viria receber. Toc, toc, toc, é o correio, tem alguém de salto muito alto no apartamento de cima. Que inferno, não consigo parar de ouvir, silêncio, silêncio...e adormeceu.
No dia seguinte Aurélio lembrou de cada detalhe do dia mais ensurdecedor de sua vida. Ufa, passou, ainda bem.
No trabalho, se desculpou com o Fonseca que aproveitou o ensejo para pedir-lhe mais um relatório. Sentou-se e começou a digitar cada palavra que saiu da boca do chefe. Repetia incansavelmente todos os dizeres, prazos, datas, preços. Fez o trabalho em duas horas e passou as outras sete repetindo tudo o que continha nas 13 páginas. Cada aspas, cada vírgula, e o pior, cada centavo.
Não, mais um dia de cão e vou enlouquecer. Chegou em casa e escreveu muitas vezes os pedidos de Fonseca. A voz do chefe ecoava em sua memória e parecia não ter fim. Cada palavra ficava cada vez mais alta e com som distorcido. Chega, para de falar, Fonseca!
Depois de seu segundo pior dia, saiu para trabalhar, e estava decidido: - Fonseca, me demito!
Que sensação boa, não lembro de nada, as coisas estão em seu ritmo normal. Ele teve a certeza de que o trabalho o estava enlouquecendo e, enfim, se livrara do problema, sua mente estava tão vazia, sem ter que pensar nem lembrar de nenhuma futilidade. O lugar estava claro e iluminado, todos estavam vestindo branco, estava tudo tão perfeito.
Fonseca despediu-se atordoado com tantos pensamentos, pôxa, porque fui pedir aquele relatório.


AUTORA: MARA CONTI
PARA MAIS TEXTOS ACESSE: http://maraconti.blogspot.com/

DANIELLE CORRÊA



O CAUSO DO ZÉ

Todo mundo conhece um Zé na vida, não importa; demore o tempo que for, um dia você acaba conhecendo um Zé, seja ele, um músico, vendedor de tapioca, eletricista, farofeiro, iluminador de teatro, quem sabe até um escritor renomado, enfim, não há ninguém que nunca tenha conhecido um Zé na vida. Eu, por exemplo, conheço muitos, isso sem contar os “Zé’s ninguéns” que existem de monte por esse mundão a fora. E como todo Zé, tem sempre alguma história para contar, eu já começo aqui a minha narrativa. E adivinhem como se chama o protagonista da história?
Mas, chega de brincadeira; eu conheço um Zé que é todo mulherengo, adora um rabo de saia; porém esse Zé sempre foi exigente com as moças que levava para casa. Mas um dia, nem tudo sai nos conformes.
Numa certa noite de sábado, como de costume, o Zé saiu para a gandaia a fim de ir atrás de alguns “brotinhos” - gíria usada há mais de duas décadas para definir alguém bonito. Parou num boteco e para começar a noite, pediu uma dose de conhaque. O dono do estabelecimento, logo comentou:- Hoje é dia Zé, dia de caça!
O Zé só acenou em tom de concordância, pagou a bebida e seguiu seu caminho, rumo à festa. Ele sabia que a noite prometia, também já sabia como ela terminaria.
Quando chegou, Zé fez seu olhar “360°”, a fim de avaliar o território. Avistou de primeira, um grupo de três mulheres rechonchudas, passado o susto viu uma japinha sem bunda, em seguida babou por uma loira peituda, depois se assustou com a pior da festa; uma morena banguela do cabelo duro; mas logo se animou quando viu várias beldades sentadas numa mesa com muita tequila. “Pelo menos não está tão mal assim, tem opções!”- pensou com profundo alívio.
As horas foram se passando com som das músicas e dos barulhos dos copos. Depois de vários copos de cerveja, caipirinha, o Zé já não era o mesmo, mas ainda assim estava em sã consciência e sabia que a japa não tinha bunda, não confundia as três rechonchudas com melancias gigantes e nem via dente na banguela do baile. Sem maldade leitor, mas cá para nós, é triste demais ver baranga. Porém, mesmo com as visões do inferno, Zé se animava com o rebolado da loira e com as risadas das três gatinhas sentadas.
Mas, a noite foi passando e a cada gole, Zé firmava a idéia de que não podia voltar para casa sozinho. Pelo menos uma das quatro, ou quem sabe as quatro ele ia levar.
De fato o Zé não voltou sozinho. Entretanto no dia seguinte, ao acordar com aquela ressaca, tomou um susto que até esqueceu da preguiça de abrir os olhos e da dor de cabeça, Zé não acreditava e nem eu: dormia ao seu lado um verdadeiro dragão. Depressa começou a pensar que se tivesse investido na japinha sem bunda, ou quem sabe em uma das três rechonchudas, não estaria naquela situação. Logo o Zé que sempre saiu com mulher refinada, se via agora ao lado da mais feia da festa. Numa ação inusitada despertou a moça, inventando uma desculpa para ela se mandar. Mas a moça demorou a ir, imaginem como estava feliz.
Quando ela se foi, a primeira coisa que o Zé fez foi pegar a latinha na geladeira e tomar para tentar se esquecer da loucura que cometera.
Dali em diante Zé, teve a certeza, de que é melhor estar sozinho do que mal acompanhado. Mas também teve certeza de que fizera sua contribuição para os astros celestiais, já que realmente fora muita bondade a dele, acolher com tal aconchego uma ‘coisinha feia’ daquelas. Tinha convicção de que fizera alguém feliz, pelo menos isso.
Tanto é verdade que depois de um tempo, a tal “panela de pressão” ligou.
- Preciso devolver sua blusa – lançou a proposta indiretamente. E imediatamente, Zé disse que ela não precisaria se incomodar. Que cavalheirismo, não?!

AUTORA: DANIELLE CORRÊA
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